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GERIR É CRIAR
por
Laurent Lapierre
Está
na hora de as escolas e MBAs admitirem que gestão
não é uma disciplina exata - e sim uma
área de conhecimento tão dinâmica
quanto o próprio ser humano
Nos
últimos vinte anos, os princípios e
o vocabulário de gestão se infiltraram
em quase todas as esferas da atividade humana. Hoje
em dia, nós não administramos apenas
nossos negócios, mas também nossas vidas
e nossos relacionamentos. No espaço de algumas
décadas, a gestão se tornou uma referência
para quase todas as áreas da atividade humana.
Muitas pessoas, sem notar, são impregnadas
pelas últimas modas nesse campo – que,
a propósito, são abundantes. O tempo
inteiro, somos encorajados a tratar nossos colegas,
chefes e até mesmo membros da família
como “clientes” ou “parceiros”,
cujas necessidades precisam ser atendidas. Qualquer
pretexto vale para demonstrar nossa “liderança”,
“espírito de competitividade” e
“habilidades empreendedoras”.
Os modelos de gestão, sejam eles aplicados
no ambiente corporativo ou no dia-a-dia das pessoas,
sucedem-se com uma velocidade impressionante.Isso
acontece, especialmente, quando se trata de liderança
– assunto muito em moda hoje em dia. Chegamos
a um ponto em que é necessário recusar
a sucessão interminável de modismos
e resistir ao bombardeio de novos catequismos e noções
pré-concebidas. Devemos, de uma vez por todas,
destruir as amarras e abrir espaço para a originalidade
e a criação.
Diversos modelos de gestão prometem produzir
resultados num passe de mágica. Não
espanta que muitos executivos se sintam atraídos
por essas fantasias de auto-ajuda. Tampouco é
de estranhar que os criadores desses modismos tenham
lucro infindável com suas receitas encantadas.
Mas a verdade é bem outra. Não se pode
administrar e ter sucesso com um estalar de dedos.
Gerir é uma tarefa difícil.
Isso acontece, antes de tudo, porque a administração
empresarial não é uma ciência
exata. Ao contrário da matemática e
da biologia, por exemplo, a gestão carece de
conceitos universais, que possam ser aplicados em
qualquer ambiente. Tudo precisa ser colocado em seu
devido contexto. Por isso, não existe uma única
e milagrosa forma de gerir, nem um modelo infalível
de organização e liderança. Portanto,
não estaria exagerando quem dissesse: “Para
o inferno com as teorias de gestão!”
Devemos rejeitar todos os conceitos restritivos, que
reduzem e simplificam a complexidades das organizações
e os mistérios do comportamento humano.
A teoria jamais deve ser considerada mais importante
que a experiência. Hoje, a profissão
de gestor muitas vezes é ensinada por pessoas
que nunca a praticaram. O que pensariam cirurgiões,
dentistas, enfermeiras, advogados, cantores ou escritores
de um professor que lhes quisesse instruir nos segredos
do ofício, sem jamais ter feito uma cirurgia,
extraído um dente, cuidado de um doente, apelado
a um juiz, cantado em um palco ou publicado um livro?
As escolas de administração vêm
estabelecendo novos patamares de ensino superior,
contratando pesquisadores com treinamento científico
e obtendo credibilidade cada vez maior nos círculos
acadêmicos. Mas a qual preço desse triunfo?
O próprio objeto de estudo dessas instituições
se torna cada vez mais vago e distante – pois
é impossível apresentar respostas definitivas
para os grandes questionamentos da gestão.
Para formar verdadeiros administradores, as escolas
deveriam, antes de tudo, perguntar-se: afinal de contas,
o que é gerir? Qual o lugar da “gestão
profissional” em nossa sociedade? Em todos os
domínios da atividade humana, inclusive na
arte, o ato de criar é fundamental. Criar,
diga-se de passagem, é agir. Antes de tudo,
é necessário valorizar a ação
e a criação – para só depois
começarmos a pensar em teorias.
O desafio das escolas de administração
é, precisamente, ensinar os futuros administradores
a agir. E nós gerimos como nós somos.
A administração é uma atividade
humana e carrega todas as características dessa
condição: suas qualidades e seus defeitos,
seus talentos e suas lacunas, suas forças e
suas fraquezas, suas habilidades e suas inaptidões.
Para ser um bom gestor, portanto, é preciso
desenvolver uma percepção justa e realista
de você mesmo e dos outros. É preciso
enterra o mito do líder ideal e das receitas
infalíveis.
O gestor realista se cerca de pessoas competentes
nas áreas que menos conhece – pois é
aí que mais precisará de conselhos e
sugestões.
É aceitar ser nós mesmos diante dos
outros, significa que podemos causar desgostos a alguns
e mesmo ser o alvo de sua agressividade, sem por isso
tombar acabados.
Gerir como se é, é dar-se o direito
de pensar diferentemente dos outros, é reconhecer
o dever de consultar, escutar e admitir seus erros,
de aprender alguma coisa, de recomeçar e de
continuar.
Gerir como se é, é gerir seres humanos
imperfeitos, como nós mesmos.
Gerir como se é, é também gerir
com outras pessoas. A gestão é evidentemente
uma profissão eminentemente social. Quanto
mais o gestor é ele mesmo, mais ele se conhece,
mais ele aceitará que os outros permaneçam
eles mesmos enquanto concentram-se nas tarefas a serem
executadas ou no serviço a ser prestado.
Gerir como se é, é provar sua autonomia,
sua abertura de espírito com seus próprios
princípios e os dos outros, com suas crenças
e com as dos outros, é achar sua própria
maneira de pensar, sua unicidade como dirigente, e,
assim, gerir com seu próprio estilo.
Para serem verdadeiros criadores e líderes
de opinião, os dirigentes devem deixar de lado
modelos que não correspondem as suas realidades
e ousar deixar livre a sua imaginação,
sua inteligência e seu julgamento clarificador.
Um Método
Querer importar o modelo das ciências exatas
para estudar e compreender as ações
humanas é um erro grave, freqüentemente
repetido nas “ciências humanas”.
O ser humano que nós estudamos é uma
entidade viva e pensante que age e muda. Ele pesquisa
com os pesquisadores. Ele muda a medida que nós
o estudamos. A subjetividade e a inter-subjetividade
são partes integrantes do “real e do
objetivo” no que concerne as pessoas. Para bem
compreender, quando tratamos de gestão das
organizações e da direção
de pessoas, o projeto científico deveria então
focar-se na descrição desta realidade,
da maneira mais humilde, mais fiel e mais completa
possível, tal como se dá em um dado
momento.
A gestão é uma questão de contexto
e de historicidade, como já foi dito. A história
é feita mais por líderes e organizações
do que por teóricos que observam e relatam
nossos comportamentos e resultados. Para assumir uma
direção, é indispensável
uma compreensão da complexidade das pessoas
e das organizações. Somente quando alguém
tem uma melhor compreensão desta complexidade
é que se pode simplificar, voltar à
essência e conduzir um curso estável
através de águas turbulentas e calmas.
A gestão é uma prática que se
conhece e se aprende na maioria das vezes por experiência,
primeiramente dos outros, e posteriormente por nossas
próprias experiências.
Trata-se de uma ação que é enriquecida
através da reflexão, o que permite,
através da ação e da reflexão,
construir uma prática muito peculiar. O conhecimento
técnico não substitui a experiência.
Existe um conceito errôneo que o mesmo modelo
ou o mesmo processo de gestão pode invariavelmente
ser aplicado não só para todas as empresas
norte americanas, mas também em todas aquelas
das repúblicas da antiga União Soviética,
da Europa, dos países da África ou da
América Latina, do Haiti, etc. Será
que podemos dizer que todas culturas nacionais e corporativas,
que todas as pessoas e condições de
vida são as mesmas em todos os lugares? Será
que sabemos que o que era verdade para um país
ou organização dez anos atrás
é ainda verdade hoje em dia ou que será
verdade daqui a dez anos? Claro que não.
No campo da pesquisa da gestão, o método
de estudo de casos constitui uma abordagem empírica
direta que serve como base parar a produção
de documentos e ao avanço do conhecimento.
São estes documentos que servem para apoio
do processo aprendizagem da prática e de habilidades.
O método de casos é baseado na abertura
e na receptividade do contato direto das pessoas e
de experiências concretas. A preponderância
é dada à própria prática,
ao estudo rigoroso do fenômeno, onde se examina,
caso a caso, a inteligência das ações
daqueles que foram bem sucedidos (ou que fracassaram),
analisando aquilo que se passa na vida real, para
extrair orientações, posições
pessoais e novas sínteses que então
podem ser colocadas a serviço de suas próprias
práticas.
Na formação em gestão, a relação
do tipo mestre-aprendiz, os estágios com os
grandes especialistas e as classes com os mestres
devem ser privilegiadas. O método de casos
é um tipo de substituto da realidade do relacionamento
entre mestre e aprendiz. Um estudo de caso deve colocar
o aprendiz na posição de tomador de
decisão e levá-lo a refletir sobre a
situação de maneira que vá além
das soluções prontas. Queremos especialmente
falar de um método de caso que é baseado
em narrativas práticas e que produz uma descrição
profunda e documentada, uma narrativa que seja a mais
fiel possível a realidades que nós queremos
conhecer e que constituem o objeto da aprendizagem.
Em todos os casos, trata-se de um método de
aprendizagem indutivo no qual a pessoa que aprende
desempenha o papel principal.
A Arte de Ser um Professor de Gestão
Nossas primeiras aprendizagens têm uma influência
inegável sobre nossa maneira de ensinar. Um
músico ou cantor necessariamente aprende sua
arte através de um mestre. Ele poderá
então muito mais facilmente que um dirigente,
a quem se tem transmitido somente o conhecimento abstrato,
favorecer certo tipo de formação e de
aprendizado. Se nós temos a oportunidade de
estar em uma relação do tipo mentor
ou de estar em contato com mestres gestores, nós
aprenderemos, por processo de osmose, sobre a própria
aprendizagem, formando nós mesmos nosso próprio
talento.
Nós poderíamos pensar que somente os
grandes gestores são bons candidatos a se tornarem
professores de gestão. Entretanto, a experiência
tem mostrado que poucos dentre eles possuem competência
ou desejo de se tornarem pesquisadores ou professores
em seus campos de atuação.
Ser pedagogo demanda qualidades particulares, um longo
trabalho de preparação e uma reciclagem
contínua. Se gerirmos como somos, no campo
da formação em gestão, ensinamos
também como somos com todas as exigências
e imperfeições que podem fazer parte
deste processo.
De fato, poucos altos dirigentes se tornam bons professores,
ainda mais se eles crêem que ensinar se limita
a descrever sua experiência. Eles correm o risco
de não terem material para mais do que poucas
horas! Formar para a gestão não consiste
– não deve consistir – em produzir
clones daquilo que fomos. Ninguém nasce sendo
um bom professor de gestão.
Mesmo que isto dê algum diferencial, como todos
os talentos, o talento do mestre de gestão
é algo que se desenvolve e se adquire em sua
grande parte. O aspecto inato nada mais é que
uma base. Como em qualquer profissão, algumas
pessoas têm maior potencial do que outras, o
que faz do processo de seleção muito
mais decisivo.
Tornar-se professor supõe da parte do alto
dirigente que ele se recicle verdadeiramente, que
ele se informe sobre as diversas maneiras de exercer
a gestão e que ele se prepare para se tornar
um mestre autêntico, um guia, uma pessoa capaz
de ajudar uma outra a encontrar seu próprio
caminho, em outras palavras, fazer emergir seu próprio
talento. Freqüentemente, ele faz isso com pessoas
mais jovens e mais brilhantes que ele mesmo. Assim
como os pais que não sofrem de inveja ficam
orgulhosos de ver seus filhos não somente fazerem
coisas diferentemente e melhor que eles, mas até
mesmo superá-los. Que orgulho para um professor
ver seus jovens fazerem melhor que as gerações
que os precederam!
O mestre também ensina com seus conhecimentos,
certamente, mas também com suas qualidades
e suas imperfeições, suas forças
e fraquezas. O que ele é e o que faz é
mais importante do que ele diz. Quando nós
realmente acreditamos na força e valor de uma
abordagem pedagógica indutiva, mesmo que nós
reconheçamos esses limites, nós somos
capazes de colocar nossa fé na inteligência
da pessoa que aprende, não só em relação
a uma aprendizagem específica, mas também
em relação a aprender a aprender. O
objetivo é dar autonomia a pessoa que queira
aprender e aguçar seu julgamento.
É possível ser um bom pedagogo sem ter
jamais antes exercido a profissão de gestor!
Entretanto, o professor que não tem experiência
própria de gestão e não a conhece
pela prática deve ter a humildade e a sabedoria
de buscar ainda mais a experiência daqueles
que a vivenciaram, que têm a inteligência
e conhecem o sucesso. Ele deve igualmente aceitar
aprender com seus estudantes que podem ter ricas experiências
de gestão, e usar abordagens pedagógicas,
tais como o método de estudos de casos, que
o permite compensar sua falta de experiência
e refletir com seus estudantes sobre a prática
de outros.
Ensinar a gestão é profundamente desafiador,
provocando sentimentos de insegurança porque
requer resistir ao ímpeto natural e legítimo
do professor de ensinar. Sobretudo resistir a propensão
a professorar que foi internalizada desde o começo
de nossa educação que nós tradicionalmente
recebemos. Formar desta maneira é renunciar
ao desejo de impressionar como professor.
Repensando a formação em gestão
Os números, as estatísticas, o uso da
linguagem matemática e dos métodos quantitativos
são necessários e indispensáveis
para uma boa gestão e a concepção
de soluções eficazes. Estes aspectos
são muito importantes e constituem mais facilmente
os objetos da formação. Mas será
sempre necessário voltar a essência da
gestão: uma práxis, uma filosofia da
ação e da criação encarnadas
no bom senso. Ai reside o aspecto mais determinante
do fato de gerir: fixar metas e objetivos, desenvolver
e, usando seu julgamento, assumir a direção
de pessoas.
Então, é importante ter em mente que
uma organização pode ter um bom produto
ou oferecer um serviço de qualidade ao mesmo
tempo em que se tem uma gestão artesanal ou
que esteja fora das normas reconhecidas, das regras
tradicionais da exatidão, dos processos normativos
e das teorias populares. A gestão pode parecer
deficiente (aos olhos dos especialistas) e, apesar
disso, a organização conhecer bastante
sucesso. Igualmente, um dirigente pode não
ter nenhuma formação superior em gestão
e ser exitoso na condução de uma organização.
Por outro lado, podemos dificilmente afirmar que o
uso de um processo de gestão em moda ou reconhecido,
ou que o fato de ser detentor de um diploma outorgado
por uma escola de gestão prestigiosa, seja
garantia de sucesso...
Isto não significa evidentemente que deveríamos
questionar a existência das escolas de gestão.
Pelo contrário, uma vez que ela está
em contato com a comunidade de negócios, com
o mundo da ação, em todos os domínios,
a escola de gestão pode oferecer aos que a
freqüentam documentar práticas, formar
uma rede de conhecimentos, ganhar tempo, desenvolver
espírito crítico, formar ou aguçar
seu julgamento, aprender a convencer e descobrir seus
próprios talentos. Fica por conta do próprio
pessoal da universidade (diretores, professores, pesquisadores)
permanecer vigilante e de evitar qualquer desvio que
venha a romper estas ligações necessárias.
Eles têm a responsabilidade de proteger a razão
de ser fundamental da sua instituição.
A mensagem atualmente transmitida, direta ou indiretamente,
para jovens professores formados nos programas de
doutorado em gestão é que eles devem
produzir um tipo de pesquisa que seja direcionada
puramente aos seus colegas professores. Para avançarem
em suas
carreiras, eles devem publicar em revistas acadêmicas,
aquelas que são classificadas em função
do número de vezes que os artigos ali publicados
são citados por outros pesquisadores. As acreditações
internacionais que pesquisam as escolas de gestão
impulsionam ainda mais para uma padronização
da pesquisa e dos programas de formação.
Escondidos em suas torres de marfim, falando somente
com seus semelhantes, professores pesquisadores podem
chegar a não ter mais conta daquilo que fazem
as pessoas que dirigem verdadeiramente as organizações
no mundo real, lhes olhando de cima com seus modelos
teóricos e normativos, e pior ainda, lhes menosprezando.
Não será surpresa então ver as
escolas de gestão isolarem-se do mundo da ação
e caírem em uma crise de legitimidade.
Rejeitando
os modismos em gestão
A gestão, como a educação e a
criação, não é sempre
emocionante. Ela contém inevitavelmente sua
porção de aspectos, mecânicos,
repetitivos, técnicos, rotineiros e monótonos.
Mas em sua componente mais crucial, a gestão
é necessariamente criação. Ela
repousa sobre a imaginação, sobre a
inteligência do que deve ser feito para produzir
os resultados em equipe. As empresas que tentam mudar
a cultura organizacional para “adotar”
uma mais a moda, baseada ou fabricada a partir de
modelos prontos ou de receitas mágicas, mesmo
com a melhor boa vontade das direções
de recursos humanos, se arriscam a conhecer um sucesso
relativo e breve.
A
inteligência própria das ações
precisará, sempre e ainda, ser descoberta,
descrita e difundida tanto pelos praticantes e aprendizes
de gestor, bem como por todos aqueles que aspiram
lhe ensinar. Em gestão, devemos sempre estar
vigilantes para oportunizar um espaço maior
para o bom senso, para o julgamento e para a criação!
Os teóricos devem permanecer a escuta e observar
a experiência prática da gestão
se desejam que suas reflexões sejam pertinentes
e levadas a sério. As escolas de gestão
devem assumir com urgência um verdadeiro papel
de liderança neste sentido e formar para a
liberdade de pensar, de criar e de gerir.
Laurent Lapierre,
Ph.D.
Professor Titular da Disciplina de Liderança
Pierre-Péladeau, HEC Montreal.
http://www.hec.ca/pages/laurent.lapierre/
Tradução para
o português: Cláudia Tondo e Carlos
Klein
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