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APANHANDO E APRENDENDO...
por
Divino Leitão
Resolvi estrear minha participação nesta
lista com um "causo", ou seja, uma passagem
de minha vida profissional que redundou num enorme
fracasso, mas nem por isso deixou de ter sua utilidade,
quem sabe tem para alguém também.
Foi
em 1989, no finalzinho, ainda estava no esquema empregado/patrão
e tinha um excelente emprego, era Chefe do Depto de
CAD de uma empresa grande, que nem vem ao caso citar,
já que nem existe mais.
Um
amigo me convidou para fazer parte do corpo editorial
de uma publicação, seria uma revista
dedicada a Jogos de Computador, naquela época
não existia nenhuma no Brasil.
O
convite veio porque eu tinha experiência editorial
de trabalhar na Micro Sistemas, outra revista pioneira
de informática, até um dos participantes
desta lista já afirmou que lia meus textos,
aos 10 anos de idade ... isso é uma honra,
alguém que só tinha 10 anos lembrar
de meus textos é sinal que fiz direito.
A
proposta da nova revista era boa, uma revista especialmente
dedicada a jogos, seriamos pioneiros e juntamos uma
equipe boa, pequena mas eficiente. Deixei o emprego
para poder me dedicar exclusivamente a este projeto.
Eu
seria o responsável pelos textos e no número
1 ficou até uma coisa estranha, pois 90% dos
textos eram de minha autoria, achamos que ia ficar
chato aquilo e acabei colocando pseudônimos
em cada um dos artigos, me senti o próprio
Fernando Pessoa dos artigos técnicos.
Independente
disso a revista ficou legal, terminamos ela em Janeiro
de 1990 e podia ser lançada imediatamente mas
decidimos fazer duas coisas...
1.
Preparar outros dois números antes de lançar
a primeira, para manter a seqüência, não
seria legal começar a lançar e não
ter a próxima nas bancas um mês depois;
e
2.
Homenagear o fim da reserva de mercado, representada
pelo presidente eleito, Fernando Collor de M ... (preencham
como quiserem os três pontinhos).
Já
que íamos homenagear algo feito pelo presidente
eleito, definimos que a data de lançamento
seria a mesma do dia da posse ... 15 de Março.
E
assim foi, no dia 15, no meio de toda aquela euforia
lançamos nosso produto no mercado, com muita
pompa, distribuição nacional e coquetel...
Nosso
empreendimento não durou uma semana, talvez
mais, talvez menos, mas o fato é que aquele
saque nas poupanças foi nosso fim, a revista
teve apenas seu número 1 publicado e ainda
podemos nos considerar com sorte de que a venda da
primeira edição foi capaz de pagar a
conta da gráfica e da distribuição
porque isso nos permitiu sair da empreitada sem dívidas
pessoais a não ser a frustração
de não poder continuar o que começamos
tão bem.
A
revista estava ótima, teve aceitação
imediata do público alvo e esgotou nas bancas
(tanto que eu mesmo não tenho uma cópia
dela) mas nosso financiador foi apanhado naquele plano
colorido e não pode honrar seu compromisso
de bancar por 6 meses a revista, na verdade veio nos
pedir dinheiro emprestado pra colocar gasolina no
seu carrão pois ficou sem nada de um dia para
outro.
Não
fomos só nós que falimos antes da hora,
a empresa onde eu trabalhava antes faliu também
e era uma empresa sólida, com anos de mercado,
num prédio de 5 andares e com mais de 500 funcionários
... dos 500 eu fui o único a receber direitinho
todos os pagamentos, porque sai um pouco antes, todos
os demais ficaram nas malhas de uma justiça
que não sei porque tem esse nome.
O
que aprendemos com aquilo foi que tudo pode estar
bem, que os ventos podem parecer estar soprando no
lado certo, mas que o abalroamento pode vir de onde
menos se espera e o barco afundar tão rápido
que nem dá tempo da gente se afogar... morre
de susto mesmo.
Aquele
momento foi decisivo em minha vida profissional, apesar
do fracasso eu nunca mais me interessei em ser empregado
de ninguém, passei a trabalhar como autônomo
e até hoje vivo do que consigo produzir.
No
momento estou me dedicando a uma nova fase, que é
fazer um negócio sem sócios e sem capital
de giro significativo, o método é ter
credibilidade, ter nome e ter capacidade a ser demonstrada
e provar que meu negócio pode ser lucrativo
a quem investir nele.
Não
sei o que acontecerá em 15 de Março
de 2005, mas acho que 15 anos depois a história
não vai se repetir... pelo menos não
haverá um presidente novo entrando (espero)
e com algum ás na manga.
Divino Leitão
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